Seguidores

sexta-feira, 4 de abril de 2008

COMENTÁRIOS SOBRE A SEGUNDA FASE DO CACD 2008

Passada a maratona de aulas e de correção de exercícios para a segunda fase, finalmente tenho tempo para fazer algumas considerações a respeito da prova de português, aplicada no dia 30 de março.

Ainda que a prova não tenha sido previsível, não podemos considerá-la "descabida". Não foi cobrado dos candidatos absolutamente nada que estivesse fora do programa ou que não fosse esperado em um processo de preparação adequado, de acordo com a bibliografia OBRIGATÓRIA (destaco essa palavra porque todo o restante da bibliografia do CACD é indicativa e não restritiva). A discussão a respeito da prova e a suposta surpresa dos candidatos estão baseadas no comando da prova de redação e no uso de um poema de Drummond , enquanto todos acreditavam (eu incluso) que Drummond seria tema de uma questão de interpretação. Discutirei ponto a ponto.

É natural que durante o processo de preparação criem-se expectativas e que a busca de uma previsibilidade dê segurança ao candidato. O que não se deve, infelizmente, é basear a preparação para a segunda fase de acordo com um padrão temático pré-concebido. Como venho alertando faz algum tempo, quanto mais previsível for um tema, menor será sua chance de aparecer na prova (o que não significa que necessariamente não aparecerá). O candidato precisa estar preparado para qualquer possibilidade diante da bibliografia apresentada e das relações possíveis entre as temáticas suscitadas. Drummond na redação, portanto, não é nenhuma conspiração com o objetivo de reprovação geral.

A prova de português passou por mudanças nos últimos três anos. Ainda que preserve sua estrutura geral de uma redação e duas questões de interpretação, em 2006 incluiu-se a bibliografia obrigatória e em 2007 modificou-se essa bibliografia. Em nenhuma das três provas houve padrão na elaboração do comando das questões: em 2006 a prova pedia a discussão de um dos aspectos do único excerto apresentado; em 2007 pediu-se uma analogia entre as idéias de três excertos e, em 2008, a prova pediu a elaboração de uma redação sobre o poema apresentado. Como é possível comparar as três provas?

Em primeiro lugar, o comando da questão deixa o tema em aberto. Para alívio daqueles que temem fuga ao tema, não há UMA ÚNICA ABORDAGEM esperada. Por se tratar de um poema, as mais diversas temáticas podem ser suscitadas e debatidas sem nenhum risco para o candidato: o legado da obra de Drummond; o legado como um tema geral; o legado da poesia; as angústias existenciais do eu-lírico ou as relações intertextuais possíveis do poema com outras obras, inclusas as que fazem parte da bibliografia obrigatória da prova (sempre é mais seguro abordar os temas referindo-se ao soneto recorrentemente, mas isso não é obrigatório). Ao se pedir uma redação sobre um poema, fica clara a intenção de ampliar as possibilidades temáticas e não restringir os debates que serão realizados pelos candidatos. Com a experiência de quem já estudou detidamente mais de cinqüenta espelhos de correção de redações aprovadas e reprovadas nos últimos dois anos, afirmo com toda a segurança que, para ser prejudicado no tratamento do tema, o candidato precisaria ter escrito uma redação sobre tema totalmente não relacionado ou tão abstrato que perca a referência do poema apresentado(acredito que aqueles que se restringiram à análise estética e formal do poema terão nota mais baixa).

Em segundo lugar, o comando da questão dá maior liberdade ao candidato na escolha da estrutura da redação. Ao contrário de 2007, em que a prova pedia uma analogia, e de 2006, em que a prova pedia uma dissertação, a redação de 2008 permitiu ao candidato a escolha da estrutura que achasse mais adequada, seja dissertação, seja comentário ou suas variações. O candidato preparado seria capaz de escrever com total desenvoltura, mesmo "surpreendido" pela estrutura da prova de 2008.

Em último lugar, é importante levar em consideração o fato de que os aspectos relacionados à estrutura formal do texto têm peso significativo na nota final. Em 2007, a EFT pesava 30 dos 60 pontos possíveis na redação. O candidato que escrever corretamente e com vocabulário adequado aos padrões da prova dificilmente terá baixo desempenho. Se a banca mantiver, e eu acredito que manterá, o desconto de meio ponto por punição aplicada será preciso errar muito para que a nota fique abaixo de 36 pontos dos 60 possíveis.

As questões de interpretação não foram de alto grau de dificuldade. A análise do excerto de Graciliano Ramos pode ser feita de ângulos bastante distintos, mas igualmente válidos. A comparação entre Caio Prado Jr. e Celso Furtado exigiu apenas conhecimento básico dos conceitos envolvidos e capacidade de fazer uma breve análise relacionada. Não haverá surpresas quanto a essas questões.

A prova foi, na minha modesta opinião, muito bem elaborada. Com a bibliografia obrigatória, o candidato tem um conjunto de opções maior para a abordagem e a banca corretora tem meios para avaliar corretamente o conhecimento dos candidatos. A abertura do comando, embora seja considerada por algumas pessoas um fator de dificuldade, privilegia o candidato capaz de escrever de forma coerente em detrimento do candidato simplesmente "adestrado" a um esquema de prova ou a um tema específico. A insegurança é compreensível e fundamentada na memória traumática do resultado da segunda fase do CACD 2005. Repito, não existe uma conspiração para a reprovação geral, o que existe (e esclareço que é MINHA OPINIÃO, não opinião oficial) é a preocupação de testar a extensão do grau de preparação dos futuros diplomatas além dos temas previsíveis e recorrentes.

Enquanto o edital, o programa e a bibliografia forem respeitados, como foram e serão, e os critérios forem uniformes, como foram e serão, as reclamações não poderão questionar a legitimidade e a idoneidade da prova. Cabe a todos vocês, como eu alerto desde que iniciei este blog, prepararem-se para tudo, de forma abrangente e que contemple todos os pontos do programa do concurso. Não há forma mais segura de conseguir a aprovação.

7 comentários:

Celso disse...

Eu também acho que havia múltiplos caminhos para desenvolver a redação, minha dificuldade foi com a extensão mínima. A partir de certo ponto, ou você começa a escrever um paper ou para de escrever a redação. Enfim, é um formato, o negócio é se adaptar a ele.

Bruno disse...

cara, voce nao sabe o tanto que suas observaçoes me deixam aliviado. Na realidade, o meu pensamento na hora da prova foi muito parecido com o seu. Acabou que optei por falar do legado que os individuos podem deixar, no caso os individuos brasileiros, com os diversos problemas herdados.

valeu, uma palavra amiga nessa hora é mto importante, especialmente de alguem que, como voce, se esforçou tanto para entrar no IRBR e conhece bem a prova.

abraço

Anônimo disse...

Olá!
Não passei para segunda fase do concurso, mas gostaria de ter acesso a prova de português da segunda fase. Como posso fazer para obtê-la?

Anônimo disse...

Somente discordo em um ponto do autor do blog. Era pra escrever, sim, uma dissertação.
Segundo o guia de estudos 2008, na parte de português, eram claras as seguintes afirmações:
1) A prova apresenta textos curtos (...) que servem de base para uma redação (...) sobre tema
SUSCITADO (grifo meu) pelos textos.
2) Será avaliada a habilidade do candidato de redigir DISSERTAÇÂO (grifo meu) coerente e coesa(...)

A afirmação 1) é pra tranqüilizar os que escreveram sobre tema suscitado.
A afirmação 2) é pra preocupar os que não fizeram dissertação e, sim, análise do poema ou comentário.
Abraço

pedblan disse...

Oi!
Será que eles descontam muito no quesito 'capricho'? Isso tem me deixado um pouco preocupado.
Abraços

Anônimo disse...

"(acredito que aqueles que se restringiram à análise estética e formal do poema terão nota mais baixa)"

Não foi isso o que aconteceu. Quem se restringiu à análise estética e formal do poema teve nota [bem] mais alta.

Miguel Gonzalez disse...

O blog acabou? QUando será o próximo post?