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sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

A ascensão da Índia

Quando analistas fazem suas projeções sobre o futuro da economia e da política internacionais, costumam apontar para um conjunto de países que serão, a seu entender, as grandes estrelas do século XXI. Já se tornou famoso o acrônimo BRIC, criado pelo banco de investimentos Goldman & Sachs, composto a partir da primeira letra do nome de cada um dos quatro países que serão as 'vedetes' do capitalismo global das próximas décadas - Brasil, Índia, Rússia e China. De fato, um dos acontecimentos mais importantes neste início de século é a lenta, mas constante, alteração no equilíbrio econômico e político internacional. Se é verdade que os Estados Unidos, a Europa e o Japão continuam sendo o "centro", a "periferia" global tem-se tornado cada vez mais forte e presente na cena internacional, e é a grande responsável pela manutenção do dinamismo da economia global nos últimos anos. Enquanto os Três Grandes se arrastam, por assim dizer, com crescimento econômico baixo, na casa dos 2-3% em média (para não mencionar o Japão, que só há pouco se recuperou de uma recessão que se estendeu ao longo de quase toda a década de 90), China, Índia, Brasil e Rússia apresentam altas taxas de crescimento, da ordem de mais de 5% ao ano - registrem-se os espetaculares 11,2% de crescimento do PIB chinês, que pelo quinto ano consecutivo cresce a taxas de dois dígitos.

É interessante notar a atual "crise" (se é que temos uma - tenho pouco conhecimento em economia para arriscar qualquer prognóstico...) que abala os centros financeiros do planeta. Fosse há dez ou quinze anos, as economias em desenvolvimento estariam sendo varridas por uma onda de pessimismo que apresentaria todos os sintomas que são bem conhecidos por todos nós: queda brutal nas bolsas de valores, fuga de capitais, aumento da taxa de câmbio, inflação, queda nas exportações, instabilidade política... Contraste-se esse cenário com o atual: não apenas as economias em desenvolvimento continuam estáveis, mas também são chamadas a desempenhar o papel que outrora fora das economias desenvolvidas, isto é, sustentar o crescimento econômico global para deter a crise. Talvez possa haver um pouco de exagero nesse diagnóstico; mas quem duvida seriamente de que a China, consumidora voraz de produtos primários, a Rússia, grande exportadora de petróleo e gás, a Índia, mercado promissor para o desenvolvimento do setor terciário, especialmente TI, e o Brasil, o grande celeiro do mundo e um dos maiores mercados consumidores do planeta (não apenas em termos de população, mas também de renda per capita de seus cidadãos, quesito em que levamos grande vantagem sobre China e Índia) têm, sim, capacidade para impulsionar uma economia global claudicante?

Das quatro estrelas do futuro mundial, a China parece ser aquela destinada a desempenhar o papel mais importante. Não há analista (bom ou ruim) que não recorra a ela para explicar o mundo daqui a algumas décadas. Talvez por isso, o "BRI" de BRIC acabe sendo relativamente esquecido. Razão maior para esquecimento ocorre no caso da Índia, ofuscada pelo estonteante crescimento chinês justamente por se localizar nas vizinhanças do Império do Meio. Ademais, se Brasil e Rússia contam com um nível de desenvolvimento relativamente - sublinhese-se, relativamente - elevado, a Índia ainda luta para combater o grande flagelo da pobreza: numa economia menor do que a brasileira (US$ 1.1 trilhão contra US$ 906.5 bilhões - dados do FMI), aproximadamente 25% das pessoas estão abaixo da linha de pobreza, o que significa um contingente de mais de 250 milhões de indivíduos, quase 1,5 vez o tamanho da população brasileira, e auferem uma renda per capita de aproximadamente 700 dólares por ano (dados do Banco Mundial). Mas a Índia não é digna de esquecimento...

O que dizer do futuro papel de um país que, em menos de dez dias, recebeu a visita de líderes de duas das mais importantes potências mundiais, Gordon Brown (Reino Unido) e Nicolas Sarkozy (França)? Sem mencionar que uma semana antes, o premiê indiano Manmohan Singh havia sido recebido por Hu Jintao em Pequim. China, Reino Unido e França reafirmaram seus laços de amizade com a Índia, e foram além: a China prometeu manter os exercícios militares conjuntos que ambos os países têm realizado e promover, em 2008, o segundo Diálogo de Defensa China-Índia, além de ter expressado seu apoio às "aspirações da Índia de desempenhar um papel mais importante no âmbito das Nações Unidas, inclusive no Conselho de Segurança" (Joint Statement, 15 de janeiro de 2008. Fonte: PakTribune, http://www.paktribune.com/news/index.shtml?196221); já o Reino Unido e a França reafirmaram seu apoio à entrada da Índia como membro permanente no Conselho de Segurança - apoio que se estende ao G-4 - e se mostraram interssados em aprofundar seus laços econômicos com o país - inclusive na área militar (a França é a segunda maior fornecedora de armamentos para a Índia, atrás de Israel). O que dizer de um país que, a despeito de não ser signatário do TNP, teve seu programa e arsenal nucleares amplamente reconhecidos pela comunidade internacional, inclusive pelos Estados Unidos, com quem Nova Délhi assinou, em 2007, um pacto de cooperação nuclear para fins civis, à espera de aprovação pelo Senado americano? O que dizer de um país que mantém papel ativo, juntamente com o Brasil, nos principais grupos políticos que defendem a reforma de determinadas regras e estruturas do sistema internacional, como o G-4 e o G-20, além de atuar, juntamente com outras duas grandes democracias do mundo em desenvolvimento, no IBAS? Pode-se esperar que este país, a Índia, venha a desempenhar de fato um papel político e econômico muito mais importante do que alguns analistas prevêem (previsões, sempre elas...) para um futuro próximo.

Apesar de conhecer pouco sobre a política externa indiana, parece-me que a Índia tem rompido com alguns paradigmas que até há pouco tempo norteavam sua ação internacional. Outrora um dos grandes líderes do mundo não-alinhado, a Índia na atualidade se pauta por uma ação que visa à universalização de suas relações exteriores, principalmente em direção ao mundo desenvolvido, de quem esteve afastada pelo seu não-alinhamento ativista no MNA e no G-77 e pelo apoio que recebera da União Soviética nos tempos da Guerra Fria, especialmente a partir do cisma sino-soviético nos anos 60, da guerra sino-indiana de 1962 e da política de aproximação dos Estados Unidos e China nos anos Nixon. É sintomático que Estados Unidos, Reino Unido e França estejam voltando-se cada mais para a Índia, país democrático, relativamente estável, economicamente promissor e militarmente forte (por conta de seu imenso exército e de seu arsenal nuclear). Esta aproximação tende a se fazer mais forte com a ascensão da China, para a qual a Índia poderia servir como contrapeso regional (segundo a velha lógica da balança de poder) e com o recrudescimento da instabilidade interna no Paquistão, até o momento o grande aliado dos Estados Unidos na região.

Dessa forma, cortejando o mundo desenvolvido ao mesmo tempo em que se engaja junto ao mundo em desenvolvimento, a Índia prepara cuidadosamente o caminho para sua ascensão à condição de potência mundial, sua "montée en puissance", como dizem os franceses - numa expressão mais conveniente , concisa e sugestiva, aliás... Preparando sua base política, econômica e militar (pacífica), a Índia lança os alicerces de seu projeto de potência, e - com grande grau de possível acerto - figurará como um dos pólos do poder internacional do século XXI.

3 comentários:

Fábio disse...

O texto sofreu algumas correções gramaticais e ortográficas, graças aos precisos comentários de nosso colega Carlos A. A. Pereira, que detectou graves erros que passaram despercebidos por mim...

Abraços e obrigado ao Carlos!

Igor Trabuco disse...

Fabio, meu caro, ainda tem uns pequenos erros de palavras faltando no meio do caminho, embora esse fato não comprometa a compreensão.

Sem dúvidas, a Índia é um ator de grande relevo no sistema internacional contemporâneo, pela força de sua economia, que vem crescendo a taxas bastante significativas, bem como pela potencialidade de seu mercado interno, que não é, de forma alguma desprezível.

É, talvez, uma das maiores parcerias do Brasil neste jogo de cena da atualidade e que ambos os países possam se beneficiar de tão auspiciosa aliança..

M-A-C disse...

Excelente texto.
A melhor coisa que fiz foi te convidar para fazer parte do blog!