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domingo, 30 de dezembro de 2007

2007 - uma retrospectiva

Caros

Sei que o tema do momento são o edital e as mudanças que se fizeram no CACD 2008. Os candidatos entram agora na reta final, os estudos se intensificam, e o pensamento se dirige ao Concurso. Sobra pouco tempo para falar ou pensar em algo que não sejam as provas que se aproximam. Não vou tratar, no entanto, do edital ou das mudanças em si, quando mais não fosse porque já foram amplamente discutidos pelo Maurício, que tem muito mais conhecimento do que eu sobre o assunto. Pretendo apenas, se me permitem, ingressar na onda das "retrospectivas" de fim de ano e tentar comentar alguns dos principais acontecimentos em política internacional de 2007. Espero que isso os ajude a reter na memória os assuntos mais recentes, que costumam ser cobrados na prova de Política Internacional. Não pretendo uma análise exaustiva; antes, apenas algumas pinceladas em forma de comentários pessoais. Como sempre, seus comentários e réplicas são mais do que bem-vindos.

Creio que 2007 foi um ano mais de continuidade do que de mudanças. O continuísmo, a bem da verdade, é impressionante nos principais temas contemporâneos de política internacional.

No Oriente Médio, pouco ou nada se avançou nas negociações para a solução do sexagenário conflito árabe-israelense, mas a Conferência de Annapolis, realizada sob patrocínio dos Estados Unidos e que envolveu um multilateralismo abrangente, talvez sem precedentes no tratamento da questão (até então restrita a grupos de países mais restritos), aponta para algumas esperanças futuras. Vale a pena lembrar a participação do Brasil, um dos únicos países em desenvolvimento fora da região do conflito a serem convidados para o evento. No Iraque e no Afeganistão, a ocupação liderada pelos Estados Unidos permanece, sem perspectivas de retirada das tropas americanas e aliadas dos dois países. Em relação à situação interna de ambos os países, a violência, o caos e, principalmente, a incerteza quanto ao futuro continuam dando o tom, a despeito de pequenos avanços, desproporcionalmente alardeados pelas forças da coalizão. Finalmente, no Irã permanece o impasse sobre a questão nuclear; a divulgação de um relatório da inteligência americana em novembro, que concluiu pela inexistência de um programa nuclear militar no país, resfriou, no entanto, os debates e deslocou o foco de Teerã.

Na Europa, a União Européia passou por mais um processo de alargamento, com a inclusão de Romênia e Bulgária e a extensão do Espaço Schengen para uma dezena de países; a crise de identidade da União permanece, mas os líderes europeus tentaram reviver o Tratado Constitucional, com a adoção de um tratado revisado em Lisboa; as negociações e os debates sobre a adesão da Turquia parecem, como sempre, intermináveis.

Na América, a política externa americana continua engessada pela "guerra contra o terror", e tenderá a permanecer assim até o final do governo George Walker Bush. Ano em que se inaugurou a corrida para a Casa Branca, 2007 não trouxe mudanças à diplomacia de Washington - algo que 2008, ano de eleições, tenderá a repetir. Mas prognósticos são sujeitos a erros...

Do lado de cá do Rio Grande, merece menção o espaço cada vez maior ocupado pela Venezuela na cena regional, tendência que se fortalecerá ainda mais com o envolvimento do presidente Hugo Chávez na libertação de três reféns pelas FARC, prometida para os próximos dias. Que se coloquem as coisas em seu devido lugar, no entanto: o fortalecimento de Chávez parece ser exagerado pela mídia, especialmente no Brasil. Mesmo sua política armamentista tem encontrado ecos que fazem parecer a situação muito maior do que ela realmente é. Destaquem-se ainda o avanço - lento ou não, isso pode-se discutir - da integração sul-americana, que acaba de fazer nascer mais uma instituição regional, o Banco do Sul, banco de fomento ao desenvolvimento à la Banco Mundial, com atuação restrita à América do Sul, bem como a situação em Cuba, que parece encaminhar-se para uma transição de poder que poderá trazer conseqüências muito maiores para a região do que a política interna e externa da Venezuela... Olho em Cuba!

Na África, seguem, infelizmente, os intermináveis conflitos que há décadas abalam o continente. Darfur é, de longe, a maior tragédia humana da atualidade, e pouco se fez para se tentar solucionar o conflito e deter o genocídio de dezenas de milhares de pessoas. Destaque-se positivamente a criação da UNMIS (United Nations Mission in Sudan), força híbrida Nações Unidas - União Africana, que envolve mais de 27.000 militares e civis, e que deverá iniciar suas operações no começo de 2008. Eritréia, Etiópia, Ruanda, República Democrática do Congo, Somália, entre tantos outros, continuam mergulhados em seus conflitos, acenando com pouco otimismo para quaisquer mudanças em 2008. A reconstrução e o crescimento de Angola e Moçambique são, por outro lado, fios de esperança que mostram ser possível superar décadas de conflito no continente com os olhos num futuro mais promissor.

Na Ásia, a China parece continuar sua marcha persistente rumo à condição de grande potência: mais um ano de crescimento espetacular e de maior envolvimento na política internacional, com destaque para a Cúpula Sino-Africana, que conseguiu reunir em Pequim todos os 53 chefes de Estado e/ou de Governo do continente africano. Conflitos continuam por várias partes do continente asiático, como no Nepal, no Sri Lanka, na Cashemira, no Tibet e em Myanmar - mesmo este não foi uma novidade, uma vez que as forças políticas e sociais em confronto já se enfrentaram várias vezes em décadas precedentes. Na península coreana, progressos foram feitos nas negociações para o desarmamento nuclear da Coréia do Norte, mas, ao que parece, Pyongyang continua a deter a bomba, e não dá mostras de alterar significativamente seu histórico curso de isolamento.

Finalmente, nas Nações Unidas permanecem sem avanços concretos as discussões e negociações sobre a necessidade de reforma da Organização, especialmente de seu Conselho de Segurança.

Evidentemente, muitas coisas ficaram de fora desse retrospecto. Os acontecimentos citados, no entanto, parecem suficientes para assinalar o impressionante continuísmo que marcou o ano de 2007 nas relações internacionais e na política mundial. Para não dizer, no entanto, que "não há nada de novo debaixo do sol", duas novidades merecem menção especial, não por serem novidades de per se (mesmo porque parecem ser culminâncias de dois processos que se arrastam há alguns anos, e não fatos inéditos que emergem inesperadamente), mas pelas conseqüências que podem trazer para a política internacional, tanto no curto quanto no longo prazos.

A primeira delas é o retorno da Rússia à cena internacional. Sob Vladimir Putin, eleito a personalidade do ano de 2007 pela Time Magazine, a Rússia alcançou um nível de estabilidade política, econômica e, como conseqüência, social que lhe permitiu retornar com atividade intensa ao palco da política das grandes potências, abandonando para trás as lembranças dos tumultuados anos 90. Este sucesso russo se apóia sobre a elevação exponencial dos preços do petróleo e do gás nos últimos anos, que permite à economia russa crescer a taxas superiores a 6-7% ao ano, bem como sobre um regime político autocrático, que logra a estabilidade política por meio da supressão de forças de oposição e do próprio debate democrático. Alavancada política e economicamente, a Rússia voltou definitivamente à cena internacional, como mostraram as intervenções - algumas delas veladas, outras nem tanto - em seus ex-satélites do período soviético (Estônia, Ucrânia, Bielorússia - com quem Moscou discute a formação de uma "federação"), a utilização das fontes de energia como instrumento de pressão sobre a Europa, a decisiva oposição à construção, pelos Estados Unidos, de um sistema de defesa antimísseis na Europa Oriental, a manutenção das relações de cooperação na área de defesa com o Irã, a participação nas negociações hexapartites sobre a questão norte-coreana, a denúncia do Tratado sobre Forças Convencionais na Europa, a aliança com a China no Grupo de Xangai, entre tantos outros episódios. A sucessão de Putin não será, a bem da verdade, uma verdadeira sucessão, uma vez que o candidato do Kremlin já afirmou que convidará Putin para ser primeiro-ministro, em caso de vitória nas eleições. Dessa forma, a Rússia deverá continuar sua ascensão política e diplomática, desejosa de restaurar sua posição na época áurea da União Soviética e apoiada em seu arsenal nuclear, no crescimento de sua economia e na manutenção da estabilidade interna.

A segunda mudança, mais óbvia do que é a primeira, acontece neste exato momento no Paquistão - desnecessário relembrar os fatos que parecem guiar o país para o caos. A situação nesse país é potencialmente explosiva por três motivos fundamentais: Islamabad é aliada-chave de Washington na "guerra ao terror"; o país detém armas nucleares, que poderiam, em tese, sair do controle do governo e cair em mãos de outros grupos políticos e, mesmo, de extremistas; o conflito no país pode-se espraiar para a Índia, o que poderia levar as duas nações a travar a quarta guerra em seis décadas. Além de adicionar um elemento de enorme incerteza e de conflito a uma região historicamente instável, a situação paquistanesa representa um duro golpe à estratégia americana de combate ao terrorismo exatamente na região em que supostamente se concentram os esforços dos Estados Unidos para debelar o Taleban e a Al-Qaeda. Confiando na força militar para o combate ao terror, os Estados Unidos "terceirizaram", por assim dizer, parte dos esforços miliatres na região ao Paquistão, com o qual não poderão mais contar caso o país mergulhe na guerra civil ou conduza ao poder grupos políticos anti-americanos. Os acontecimentos das próximas semanas serão cruciais para uma possível redefinição da estratégia americana, e a escolha que fizer Washington terá sérias conseqüência não apenas para a região, mas também para o mundo. A ausência de escolha e a paralisia, por outro lado, poderão ensejar o aumento do poder dos extremistas e terroristas que sabidamente buscam refúgio na região montanhosa da fronteira afegã-paquistanesa. Pode parecer exagero, mas, neste momento, o Paquistão está no centro do mundo.

O exercício de olhar para o passado é imensamente mais fácil do que o de tentar desvendar o futuro - ainda assim, tenho certeza de que neste exercício há omissões e, mesmo, falhas - oxalá desculpáveis e irrelevantes. Espero, entretanto, que tenha sido válido para ajudá-los em seus estudos.

Como últimas palavras, desejo a todos os leitores um feliz 2008!

5 comentários:

Anônimo disse...

Nao mereceria mencao a situacao na Bolivia: o tenso cenario entre autonomistas das provincias componentes da Meia Lua e o governo de Evo M., no que se afigura como um acirramento de questoes historicas das quais o componente etnico eh um fator importante, e que aponta, ate mesmo, para a possibilidade de fragmentacao daquele Estado nacional?

Anônimo disse...

gente, este blog é ótimo!

parabens a todos!

Fábio disse...

"Anônimo"
A situação na Bolívia merece ser acompanhada com muita atenção, sim; entretanto, optei por deixá-la de lado, não apenas porque não pretendia um arrolamento completo de todos os fatos do ano, mas também porque ela não se afigura uma novidade, uma vez que tem-se arrastado desde que Evo Morales tomou posse.
Saudações, e muito obrigado pelo comentário!

Daiane disse...

Boa Tarde Mauricio
Meu nome é Daiane e sou gaúcha, ou seja, estou longe dos centros de ensino para este concurso, o qual estou muito interessada, mas sei que não estou preparada. No entanto, quero começar a me preparar não para este mas para os próximos, pois estudei em universidade americana e sempre trabalhei em comex. Neste caso quais são suas sugestões para que eu possa me capacitar a prestar este concurso.

Obrigada

Vica disse...

Olha, parabéns pela iniciativa, este blog é ótimo e muito útil.