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domingo, 28 de dezembro de 2008

ÓBVIO ULULANTE

A preparação para o CACD pode ser, em muitos casos, o caminho mais curto para a insanidade. Não faço essa afirmação como uma crítica sarcástica, mas como um constatação baseada na experiência como candidato,em primeiro lugar, e como professor que atua na preparação de candidatos, em segundo lugar. São tantas as pessoas, são tantas as personalidades e os perfis das pessoas envolvidas na preparação, que seria quase impossível tentar descrever todos os tipos. Alguns desses tipos, entretanto, merecem uma análise mais aprofundada.

Como candidato, certamente fiz parte do nem tão seleto grupo de "loucos" que se preparavam para o CACD. Para muito de nós, os obstáculos parecem tão grandes e intransponíveis que somente a adoção de um regime disciplinar quase militar parece satisfazer nossos anseios. Diante do "trabalho de Sísifo" de tentar cumprir todo o programa do CACD, todos os esforços parecem minúsculos. O resultado é o desenvolvimento de um grau, às vezes elevado, de obsessão pela prova: só falamos disso, só pensamos nisso, só imaginamos nossa vida feliz condicionada a esse objetivo cumprido. De certa forma, trata-se de um processo necessário à aprovação. Ainda que não seja preciso tamanho envolvimento 365 dias ao ano, qualquer pessoa que chegue à últimas etapas vai passar por esse processo(em diferentes graus, é claro).

Minha preparação teve duas etapas distintas: dois anos em Porto Alegre, onde fazia somente aulas particulares de inglês e português( até aquele momento não havia uma curso decente por lá) e lia noite e dia, dia noite, horas e horas, aos sábados, domingos e feriados.Lia no ônibus, lia no trabalho, estudava horas por dia em bibliotecas. Felizmente, o sistema de bibliotecas da UFRGS me dava acesso a 100% da bibliografia indicada. Essa primeira fase de preparação em POA, um pouco isolado e dependente de informações pela internet, foi a que me deu base sólida de conhecimento e de domínio do programa da prova. A segunda fase da preparação foi de cerca de sessenta dias, em Brasília, onde pude fazer um curso de revisão intensivo e ter contato com candidatos que estavam, digamos, em estágios mais evoluídos de preparação do que aqueles da minha terra natal. Essa segunda fase foi a que me ajudou a organizar o conhecimento que adquiri mediante milhares de páginas de leitura, mas eu certamente jamais teria sido aprovado sem toda a carga de leitura que tive. O fundamental é que, na primeira etapa da preparação, eu não tinha alternativa: ou lia muito ou desistia. Tracei uma linha reta até meu objetivo e não saí dela até que ele fosse cumprido: desligar-me dessa "obsessão" foi um processo lento e gradual, mas eu acredito que consegui(muito embora haja quem afirme que a manutenção deste blog é um sinal dessa obsessão-he he).

Como professor, tanto de curso preparatório quanto particular, pude observar os mais diferentes comportamentos em relação CACD de candidatos dos mais diversos estágios de preparação. Alguns desses comportamentos levam a erros mais do que evidentes no processo de preparação, mas, infelizmente, é difícil para as pessoas perceberem seus erros de forma clara.

Muitos candidatos consideram-se suficientemente preparados e acreditam que uma revisão razoável das leituras que já fez e algumas aulas serão suficientes. Confiam excessivamente na memória, o que é um erro de significativas proporções. A memória é distorcida com o tempo e somente a realização de releituras constantes pode reduzir essa distorção. Trata-se de fazer esforço extra para manter as informações sempre claras na memória. Tem-se de evitar o vício acadêmico de desvalorizar o conhecimento factual e privilegiar os aspectos gerais e analíticos. A prova objetiva, especialmente, enfatiza o conhecimento "decorado" de um conjunto de obras consideradas básicas. Muitas das questões que revoltam os candidatos são meros trechos de obras básicas que não são lidas pelos candidatos. Não importa o estágio de preparação em que o candidato esteja, sempre há mais o que estudar e há mais o que revisar: superestimar o próprio conhecimento é uma armadilha perigosa.

Outros candidatos fingem que estudam, ou somente acreditam que estão estudando. Fazem uma aula aqui e outra lá, fazem um curso preparatório, mas não lêem quase nada, não estudam fora das aulas e não têm o mínimo foco no CACD. Essas pessoas precisam de um choque de realidade. Ninguém a aprovado por milagre! A sorte pode ajudar na prova objetiva (e isso não é raro), mas não há santo que aprove alguém que não se atirar nos estudos em algum momento. Quanto mais tarde isso acontecer, menores as chances de aprovação.

Um terceiro grupo é formado pelas pessoas que tentam reduzir ao máximo o esforço necessário à aprovação. Muitos buscam fórmulas milagrosas, tentam reproduzir métodos de pessoas aprovadas, tentam encontrar o atalho desse caminho que mais parece uma rodovia de 1000 km de chão batido. Cada candidato precisa encontrar o método mais adequado às suas necessidades! Uns rendem mais com leitura, outros rendem mais com aulas. Uns rendem mais com fichamentos, outros não rendem nada com fichamentos. As tentativas de reprodução de métodos e de redução do esforço quase sempre atrapalham na consecução do objetivo de todos: a aprovação.

Há também os ansiosos e angustiados. Essas pessoas passam mais tempo pensando sobre a prova do que se preparando para realizá-la. Têm tanta preocupação com o edital, com o formato, com os boatos, com o número de vagas e com a composição das bancas que esquecem de se preocupar com as leituras, com o programa da prova, com a solução de suas deficiências em muitas matérias. Como resultado, essas pessoas ficam paralisadas, imobilizadas e, obviamente, não são aprovadas.


O CACD é uma prova com características muito específicas, mas está longe de ser perfeita. O êxito nessa difícil empreitada depende de um sutil equilíbrio entre talento e esforço, capacidade e disciplina. É muito freqüente que um candidato esforçado e disciplinado supere um candidato aparentemente mais bem preparado (uso o advérbio "aparentemente" para enfatizar a diferença entre boa preparação em geral e boa preparação para AS PROVAS). O esforço condicionado por um método falho pode causar desastres, mas a confiança no talento sem esforço pode ser ainda pior.

Por último, é importante que todos tenham consciência de que se tornar diplomata não é o único caminho para a felicidade e que ser aprovado no CACD não coloca ninguém num estágio superior da escala evolutiva das espécies. Ser ou não ser aprovado pode ser conseqüência de muitos fatores circunstanciais, mais do que de fatores estruturais. Tentem não deixar suas vidas se perderem numa obsessão que acabará perdendo o sentido e os tornando infelizes ou deprimidos.
Meu texto parece só falar do óbvio ululante, mas, acreditem, muitas pessoas não percebem essas obviedades.

sábado, 6 de dezembro de 2008

A MUDANÇA VEM AÍ... DICAS PARA O CACD 2009

Engana-se quem pensa que me refiro à eleição de Barak Obama nos EUA. O tópico aqui é, como sempre, o CACD.

Falar de mudanças no concurso não é nenhuma novidade, feliz ou infelizmente. Ao contrário do ano passado, até agora não foi publicada nenhuma portaria sobre modificações na estrutura da prova, o que indica a possibilidade de que as mudanças sejam conhecidas somente na publicação do edital do próximo CACD.Tudo pode, ou não pode, acontecer a partir de agora.

De acordo com o já difundido boato, a primeira etapa ocorreria em 15/02/2009. Pode ser verdade? Sim, pode. Apesar de ser apenas uma especulação, como todas as outras, tem fundamento no calendário dos concursos de 2006 e 2007, quando o Carnaval foi no fim de fevereiro e no início de março, respectivamente. É possível que a prova ocorra em outra data? Sim, é possível.

Há outras especulações importantes perturbando a vida dos milhares de candidatos espalhados pelo Brasil. Vamos discutir uma a uma:

a) a inclusão de prova de espanhol na primeira fase é, sem dúvida, a que provocaria maior "rebuliço", considerando que não se aprende língua estrangeira em quarenta dias(muito embora haja candidatos que acreditam na possibilidade de aprenderem inglês nesse período de tempo, caso passem de fase);

b) arealização da primeira e da segunda fases no mesmo final de semana, como ocorreu nos concursos de 2005 e 2006, é outra especulação importante. Redação, assim como língua estrangeira, não se aprende em quarenta dias. Quem não se preparou até agora terá sérias dificuldades na prova. As exigências dessa prova são muito específicas e os problemas de escrita dos candidatos, em geral, são muito maiores do que o tempo de preparação. A prova de redação é a que mais "derruba" pretensiosos de todo o gênero. Quem ainda não começou a escrever e a se preparar especificamente deveria começar agora: depois do edital pode ser tarde demais;

c) eliminação da bibliografia obrigatória da segunda fase: a possibilidade existe, mas isso não significa que seja possível ignorá-la até que o fato se confirme. Considerando as não raras tentativas de "encaixar" temas diversos no poema de Drummond, na prova de 2008(o que não é uma especulação, é um conclusão baseada na leitura de mais de noventa espelhos da prova deste ano), a possibilidade de alguma "surpresa" não é nada desprezível.

O importante é que os candidatos se conscientizem de que a prova está próxima e que é melhor estar preparado para tudo. Todo o tempo perdido com especulações não acrescenta nada em conteúdo ou em forma de preparação. Seja qual for a estrutura, uma preparação bem direcionada e com a devida profundidade na abordagem dos temas é a única "semi-garantia" de êxito.

Para ajudar os novos leitores do blog, deixo aqui os links dos textos que publiquei em 2007 com dicas de litura sobre todas as matérias. Eu os reli, comparei com a prova deste ano e concluí que nao há mudanças significativas a serem feitas, jé que meu objetivo foi sempre o de contribuir para a preparação mais completa e abrangente possível.

http://dialogodiplomatico.blogspot.com/2007/08/dicas-de-histria-do-brasil-para-o-tps.html

http://dialogodiplomatico.blogspot.com/2007/09/dicas-para-prova-de-ingls-no-tps.html

http://dialogodiplomatico.blogspot.com/2007/09/dicas-para-histria-mundial-no-tps.html

http://dialogodiplomatico.blogspot.com/2007/10/dicas-de-poltica-internacional-para-o.html

http://dialogodiplomatico.blogspot.com/2007/10/dicas-para-portugus-no-tps.html

http://dialogodiplomatico.blogspot.com/2007/12/dicas-para-geografia-direito-e-economia.html

domingo, 26 de outubro de 2008

BLOG DA VEZ II

Desta vez, indico o site da Revista Pangea. O site é interessante não somente pelo conteúdo de atualidades em termos de geopolítica e política internacional, mas fundamentalmente pela seção específica de geografia, que contribui muito para a preparação ao CACD. O endereço so site é:

http://www.clubemundo.com.br/revistapangea/


Bons estudos.

domingo, 12 de outubro de 2008

LIÇÕES DO CACD 2008

Estamos chegando ao fim de 2008, o momento de "afunilamento" da preparação dos candidatos ao CACD 2009 e, provavelmente, do processo de tomada de decisões relativas ao próximo concurso. Muito embora especular seja uma tentação quase inevitável, há lições importantes que os candidatos podem aprender com o CACD 2008.

Em primeiro lugar, o CACD 2008 serviu para demonstrar aos "pragmáticos" que foi um "pecado capital" dedicar todo o ano de preparação às matérias que foram cobradas no TPS 2007. Ainda que a prova de 2008 reproduzisse o formato de 2007, o conhecimento mais abrangente do programa do concurso era fundamental e, em geral (o que não elimina exceções), não poderia ser resolvido em quarenta dias. Essa lição de 2008 provocará uma significativa mudança para o CACD 2009: os candidatos estão estudando, com a devida prioridade, todas as matérias do CACD desde o início da preparação, o que tornará a primeira etapa ainda mais competitiva.

Em segundo lugar, o CACD 2008 repetiu seu "padrão de mudança". Seja por mudança substancial, seja por mudança de menor relevância nenhum dos últimos 8 CACD's foi igual ao outro. O candidato que organiza sua preparação baseado exclusivamente na prova anterior está, portanto, assumindo riscos desnecessários. Mais uma vez, é muito importante compreender que a forma mais segura de não ser surpreendido por mudanças é ter a preparação mais abrangente possível e não negligenciar o estudo de NENHUMA DISCIPLINA. Será que algo vai mudar no CACD para o próximo ano? Acredito que sim, ficarei surpreso se não houver nenhuma mudança.

Por último, é muito importante que o CACD é um concurso público-de alto nível, com certeza- que não é perfeito, como qualquer outro. Não existe como avaliar perfeitamente o conhecimento de milhares de candidatos. A relevância do conteúdo cobrado, as dificuldades de formulação da prova e a escolha dos tópicos do programa que são cobrados nas etapas discursivas não depende da escolha dos candidatos: é preciso estar preparado para tudo!

"Muita leitura, boas aulas, realização de exercícios, disciplina, obstinação e organização". Esse deveria ser o "mantra" dos candidatos ao CACD. Não adianta nada fazer de conta que estuda, gastar mais tempo com ansiedade em relação à prova do que com estudo efetivo ou dedicar horas e horas de pensamento, conversa e escrita com reclamações sobre a prova. O objetivo é a aprovação e serão aprovados aqueles que estiverem mais bem preparados no momento da avaliação: quanto mais abrangente for a preparação, menores os riscos de reprovação.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

BLOG DA VEZ I

Ao contrário do que parecia, o Diálogo Diplomático não acabou. O tempo está mais curto, o trabalho aumenta a cada dia, mas tentaremos continuar contribuindo para a preparação dos candidatos ao CACD, especialmente àqueles que estão longe dos centro hegemônicos.

Para reiniciarmos as atividades, publicaremos indicações de blogs e sites que tratem de temas relativos aos temas do CACD, em todas as matérias. O objetivo é o de possibilitar aos candidatos "isolados" ter acesso a materiais de qualidade mediante o uso das ferramentas mais práticas.

Hoje, o Blog da Vez é do Professor Jeferson Pitol Righetto, de Geografia. O Prof. Jeferson Pitol trabalha na preparação para o o CACD e seu blog reúne muitos textos, resumos, artigos e reportagens que interessam diretamente aos candidatos ao IRbr. O endereço é:

http://profjeferson-curso-atlas-irbr.blogspot.com/

Até o próximo post!

terça-feira, 3 de junho de 2008

Comentários sobre a prova de Política Internacional



Caros,

Coube a mim elaborar os comentários sobre a prova de Política Internacional do CACD 2008, dando contuinuidade à série iniciada com os comentários feitos pelo Maurício em relação às provas de História do Brasil e de Geografia. Vamos analisar as questões, com a ressalva de que o que se pretende aqui é dar algumas indicações básicas, não-exaustivas, sobre uma possibilidade de resposta. Procurarei, a partir do entendimento do comando da questão, ressaltar as estratégias que poderiam ter sido adotadas na resposta, bem como o que se exigia do candidato em termos de capacidade analítica e crítica e de conhecimento de fatos e dados.

Aproveito para reiterar que as sugestões de respostas aqui publicadas são análises subjetivas, de minha autoria exclusiva, e que não há aqui qualquer tentativa ou pretensão mínima de fornecer ao candidato nem gabaritos de provas, nem modelos de respostas. Todas as informações aqui publicadas estão ao alcance de todos nós por meio dos estudos que, na qualidade de candidatos e/ou estudiosos do(s) tema(s), realizamos sobre os assuntos abordados.

Espero que o tópico seja útil e que contribua para o debate e para a preparação de candidatos a provas futuras.


Questão 1

A crescente aproximação com os grandes países emergentes constitui uma nova perspectiva aberta pela política externa brasileira. Discorra sobre essa aproximação, destacando os interesses que a orientam.

Espera-se que o candidato saiba compreender a aproximação com os grandes países emergentes (África do Sul, China, Índia, Rússia e, mesmo, México) no quadro da política externa brasileira, o que torna necessário discorrer sobre a prioridade conferida pela Diplomacia brasileira às chamadas "relações Sul-Sul". Quanto aos interesses, pode-se identificar a diversificação das relações econômicas e comerciais, que implicam uma maior presença em mercados não-tradicionais, com destaque, obviamente, para as grandes economias emergentes, mercados extremamente atraentes em nível global; a disseminação de investimentos brasileiros em grandes países em desenvolvimento, nas áreas petroquímica, de mineração, de construção civil e de transportes; a construção de parcerias ditas estratégicas (como a que o País tem com a China desde 1993) e de alianças políticas com grandes países do "Sul" (como o IBAS); a proposição de iniciativas regionais e globais para o desenvolvimento, sem necessariamente contar com a atuação do "Norte" (como as ações de combate à fome e à pobreza no âmbito do IBAS); a defesa de reformas nas estruturas de governança global ("nova geografia comercial internacional", G-20 e G-4/Índia, por exemplo). Evidentemente, em todas essas dimensões de nossa política externa, o candidato deve concentrar-se nas relações do Brasil com os grandes países em desenvolvimento. Dessa forma, falar de G-20 não basta; recomenda-se falar sobre as relações do Brasil com a Índia e a China no âmbito desse grupo, para ficar num exemplo apenas.

Inevitável falar de IBAS, BRIC (pode-se citar a recente reunião de ministros de relações exteriores do grupo informal em Ekaterimburg, na Rússia), G-20, da cooperação com a Índia no G-4. O candidato pode favorecer uma estratégia pela qual elabore os interesses do Brasil, tal como pede o comando da questão, ilustrando-os com as diversas iniciativas, bilaterais ou multilaterais, que o País tem tomado em relação a esse tema de sua política externa ao longo dos últimos cinco anos.


Questão 2

Analise a importância conferida pelo Brasil aos biocombustíveis para a promoção das agendas de meio ambiente, de desenvolvimento e de combate à fome e a pobreza.

Recomendável que o candidato disserte sobre cada uma das três agendas em separado, concentrando-se no papel dos biocombustíveis, segundo a política externa brasileira, em cada uma delas. Espera-se que o candidato saiba articular os principais argumentos arregimentados em defesa dos biocombustíveis: promoção de combustível limpo e renovável, redução das emissões de gases de efeito estufa (meio ambiente); promoção de alternativa econômica viável à população rural de países em desenvolvimento (cabe citar projetos que o Brasil tem com Reino Unido e Estados Unidos para o desenvolvimento da produção de biocombustíveis em países africanos, centro-americanos e caribenhos); capacitação tecnológica de atividades rurais envolvidas na cadeia de produção de biocombustíveis; elevação do nível de renda no campo, não-competição com culturas alimentícias (desenvolvimento e combate à fome), etc.

Pode-se aproveitar o ensejo do recente debate em torno da escalada dos preços internacionais das commodities agrícolas e sua relação com os biocombustíveis. O candidato pode identificar os argumentos que o Brasil tem apresentado em defesa de sua política energética no que respeita aos biocombustíveis - que acaba, inclusive, de ser respaldade pelo Secretário-Geral das Nações Unidas na Conferência que se realiza sobre a questão no âmbito da FAO, em Roma, nesta semana -, como, por exemplo, o uso relativamente pequeno das terras agriculturáveis do País para o cultivo de cana-de-açúcar (aproximadamente 1% da área total), concentrado em terras de pastagens; o crescimento paralelo da produção de cana-de-acúcar e da produção de grãos (espera-se safra recorde para 2008); a alta produtividade do etanol de cana-de-açúcar, em comparação com o etanol de milho, maciçamente produzido nos EUA; a necessidade de se diferenciar o etanol da cana do etanol do milho, para fins econômicos e ambientais, entre outros.


Questão 3

Discorra sobre a relevância dada ao continente africano no contexto da política externa do governo Luiz Inácio Lula da Silva.

Espera-se que o candidato saiba contextualizar a política africana do Brasil no quadro da prioridade conferida, pela política externa do País, às relações com os países do "Sul". À luz dessa análise, o candidato deve identificar a importância da África para o Brasil. Uma estratégia recomendável é trabalhar em áreas temáticas (político-diplomática, estratégica, econômico-cultural e histórico-cultural) e, em cada uma delas, identificar iniciativas do Brasil a título de ilustração. Dessa forma, pode-se começar pela importância política e diplomática do continente e a articulação do Brasil com países africanos em foros multilaterais internacionais, a exemplo da Assembléia Geral das Nações Unidas, a parceria com a África do Sul no IBAS e, no contexto das relações bilaterais regionais, a Cúpula África-América do Sul (AFRAS). Pode-se, em seguida, abordar a importância estratégica do continente para o Brasil, uma vez que ele se encontra na outra margem do Atlântico Sul, o que legitima iniciativas como a ZOPACAS, um maior engajamento do Brasil em forças de paz autorizadas pela ONU em atuação em países atlântico-africanos (especialmente em quatro operações de paz em Angola, UNAVEM I, II e III e MONUA, mas também em outras operações, como na Libéria/UNMIL e na Costa do Marfim/UNOCI), o projeto, apoiado pelo Brasil, de tornar o Hemisfério Sul uma zona livre de armas nucleares (ZLAN), com a eventual entrada em vigor do Tratado de Pelindaba, a "contraparte" africana do Tratado de Tlatelolco (recordemos que o Pacífico e o Sudeste Asiático são ZLANs, nos termos dos tratados de Rarotonga e Bangcok, respectivamente) e a concertação com países africanos, como o Egito e a África do Sul, nos debates em torno do desarmamento nuclear (inclusive no âmbito da chamada Coalizão da Nova Agenda, lançada por Brasil e mais seis países para impulsionar as discussões sobre o desarmamento nuclear).

Em relação aos interesses econômicos do Brasil na região, figuram, entre outros, a penetração de empresas multinacionais como a Vale, a Petrobras e a Odebrecht em países como Angola, Moçambique, Líbia, África do Sul; a expansão acelerada do comércio, com destaque para países "estratégicos", como Angola, fornecedora de petróleo para o País; o desenvolvimento de projetos relacionados aos biocombustíveis, como, por exemplo, em Moçambique, que envolvem o compartilhamento de tecnologias; o aporte de expertise brasileira na área agrícola, com a instalação de escritórios regionais da Embrapa; o interesse mútuo na liberalização dos mercados agrícolas e a atuação conjunta, com certos países, na Rodada Doha, no âmbito do G-20. Por último, pode-se dissertar sobre os laços históricos e culturais que unem o Brasil àquele continente, tema cuja obviedade não pode escapar ao candidato.


Questão 4

Considerando as posições defendidas pelo Brasil nas negociações sobre mudança do clima, analise os desafios que o país enfrenta nesse tema da agenda internacional.

Necessário, em primeiro lugar, identificar a posição do Brasil em relação à questão: o Brasil apóia os esforços internacionais de combate às causas e mitigação dos efeitos da mudança climática; é parte na Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança Climática (UNFCCC, 1992) e de seu Protocolo de Kyoto (1999). Defende o princípio da "responsabilidade compartilhada, mas diferenciada", no entendimento de que cabe aos maiores poluidores a maior parte do ônus no enfrentamento ao aquecimento global e, como conseqüência, defende que as metas de redução de emissões de gases de efeito estufa sejam obrigatórias apenas para os países desenvolvidos (países do Anexo I do Protocolo de Kyoto).

Em relação aos desafios, entendida a posição do Brasil, o principal deles talvez seja seguir na defesa desse princípio diante de pressões de países desenvolvidos para que os países em desenvolvimento assumam metas obrigatórias, tornadas inequívocas na Conferência de Bali, em dezembro passado. Outros desafios incluem a contribuição do País para a redução global das emissões de gases de efeito estufa, por meio de reduções voluntárias que, a propósito, podem ensejar projetos implementados com países desenvolvidos no âmbito do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) do Protocolo; a redução do desmatamento na Amazônia e a defesa contra críticas e pressões de países desenvolvidos e de ONGs; a atuação conjunta com outros países em desenvolvimento com vistas a manter a validade do princípio das responsabilidades comuns, mas diferenciadas. Vale recordar, por último, que o País tem um papel de protagonista nas discussões; foi um dos propositores do MDL e, na atualidade, defende iniciativas próprias como a criação de fundos internacionais, um de combate ao aquecimento global, ao qual países em desenvolvimento teriam acesso para financiar projetos ambientalmente sustentáveis que implicassem a redução de emissões de gases de efeito estufa, e outro de combate ao desmatamento.


Boa sorte a todos nas próximas provas.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

COMENTÁRIOS SOBRE AS PROVAS DE HISTÓRIA DO BRASIL E GEOGRAFIA-TERCEIRA FASE-CACD 2008

Iniciamos hoje a série de textos de comentários sobre as provas da terceira fase do CACD 2008. Deixo claro que não tenho nenhuma intenção de postar o "gabarito" das provas e que não há nenhum tipo de "inside information" aqui. Apenas expresso minha opinião, faço análises subjetivas e procuro contribuir para a o debate entre os candidatos que se preparam para este e a para os próximos CACD's.

As provas realizadas neste final de semana não surpreenderam. Primeiro, pelo motivo mais óbvio de todos: nunca é surpresa cair qualquer tema que esteja dentro do programa, o candidato tem a obrigação de estar preparado. Segundo, sempre há questões que não são consideradas "temas quentes" que aparecem nas provas, portanto não é surpresa que isso tenha ocorrido mais uma vez(o que reforça o argumento de que o candidato tem a obrigação de dominar ao máximo o programa o concurso).

Ambas a provas mantiveram algumas das características básicas desta fase nos últimos três anos: necessidade de bom conhecimento factual, já que algumas questões exigiam o conhecimento de cronologias e de fatos específicos; capacidade de analítica e argumentativa relativa ao conhecimento desses fatos; capacidade de relação entre fatos e argumentos aparentemente díspares e, mais importante de tudo, conhecimento da abordagem e da linguagem específicas de cada uma das disciplinas. Embora os temas do concurso sejam interdisciplinares e possam aparecer em mais de uma prova, a análise e a linguagem empregadas não são as mesmas e, fundamentalmente, os fatos a serem destacados não são necessariamente os mesmos. Tratar e um tema na prova de geografia como seria tratado na prova de política internacional não garante nota, assim como tratar um tema na prova de história do Brasil como se fosse de política internacional também não. As provas, entretanto, também exigiram do candidato, em questões específicas, respostas mais argumentativas e analíticas que não exigiam base factual representativa. Discutiremos a seguir.

Prova de História do Brasil


Questão 1
Durante o Segundo Reinado, as relações de trabalho no Brasil passaram por diferentes condições sociais e jurídicas, desde o regime de escravidão até o trabalho livre ou assalariado. Discorra sobre a evolução das condições sociais e jurídicas do trabalho no referido período histórico.
Extensão máxima: 90 linhas
(valor: 30 pontos)

A questão 1 deixa explícita no comando a necessidade de abordagem cronológica dos fatos(ainda que não necessariamente seja a única forma de discorrer sobre qualquer processo evolutivo). Seria necessário o conhecimento acerca de fatos importantes que envolvem o trabalhos escravo, a imigração (contratos de parceria e de arrendamento, bem como todas as formas de trabalho servil), trabalhadores livres urbanos, escravos de ganho, estrutura do serviço público, relações de trabalho nos latifúndios (agregados, procuradores), leis relativas ao trabalho escravo (lei do ventre livre, lei dos sexagenários) e abolição da escravatura, somente para dar alguns exemplos. A ênfase, na minha opinião, deveria estar nas transformações das relações de trabalho após a abolição do tráfico de escravos, da lei de terras e do início da imigração desde experiência pioneira do Senador Vergueiro até a abolição da escravatura.. Em 90 linhas não há espaço para tratar de todos esses temas, é claro, mas é evidente a necessidade de citar a analisar os principais fatos relacionados à questão.

Questão 2

O MERCOSUL é a experiência mais importante da política externa brasileira e abriu uma nova etapa em sua formulação e implementação.

O Tratado de Assunção foi assinado em 1991, a partir dos avanços da cooperação entre Brasil e Argentina desenvolvidos desde 1985.

Miriam Gomes Saraiva. As estratégias de cooperação Sul-Sul nos marcos da política externa brasileira de 1993 a 2007. Revista Brasileira de Política Internacional. 50(2), 2007, p. 50.****

Tomando o fragmento acima apenas como referência inicial, redija um texto dissertativo em que sejam abordados os seguintes aspectos relativos à importância que o Brasil atribuiu ao processo histórico de integração sub-regional:
* o peso do MERCOSUL na agenda diplomática nacional, desde suas origens;
2* a ampliação do processo de integração ao longo dos anos.
Extensão máxima:90 linhas
Valor: 30 pontos

A questão 2 exigiu do candidato a capacidade de conjugar, do começo ao fim, o conhecimento factual e a capacidade analítica. Para dissertar sobre a ampliação do processo de integração, é preciso conhecer a cronologia dos fatos (pelo menos os fundamentais) desde os antecedentes que levaram à criação do MERCOSUL até os dias atuais. Para dissertar sobre o peso do MERCOSUL na agenda diplomática do Brasil, é necessário conhecer as diferentes estratégias empregadas pelos últimos governos do país no processo de integração e, ao mesmo tempo, ter capacidade crítica e analítica a respeito dessas estratégias. O tema da questão não é difícil e reflete uma das maiores prioridades da politica externa brasileira atual.


Questão 3
Exponha os principais pontos da Constituição republicana adotada em 1891.
Extensão máxima: 60 linhas(valor: 20 pontos)

Nesta questão, o conhecimento factual era fundamental. Primeiro, para poder expor os "principais pontos", é preciso conhecê-los. Parece óbvio, mas não é. Além de conhecer a Constituição de 1891, é necessário conhecer bem a Constituição de 1824 (e os atos adicionais) a fim de estabelecer as diferença e os contrastes entre as duas Cartas. Sessenta linhas é um espaço curto, por isso acredito que uma exposição concentrada na mudança de sistema e do regime de governo, na extinção do conselho de estado, na autonomia das unidades federativas, na separação entre a igreja e o estado, na participação do legislativo no processo de incorporação de tratados que não tratassem de troca e concessão de territórios e nas diferentes abordagens dos direitos fundamentais conseguirá boa nota. Sem dúvidas, acredito que esta tenha sido a questão que mais assustou os candidatos por ser "inesperada", mas não pode ser considerada "descabida".

Questão 4
Disserte acerca do processo de envolvimento do Brasil na Primeira Guerra Mundial, com ênfase nas razões que, em 1917, levaram o país a rever a posição de neutralidade que mantivera até então.
Extensão máxima: 60 linhas(valor: 20 pontos)

A questão 4 foi, grosso modo, a única questão de história da política exterior do Brasil cobrada na prova (não esqueçamos que os temas de HRIB pós-1945 são de política internacional, não de história, no programa do CACD 2008). O envolvimento do Brasil na Primeira Guerra é tema ainda pouco estudado, além de que a os temas de HRIB da República Velha são muito recorrentes na obra do Prof. Eugênio Garcia, que faz parte da bibliografia indicada para a prova. Sem dúvidas, esta questão foi a que mais exigiu capacidade de análise em comparação do conhecimento factual.

A prova de históra do Brasil parece ter sido bem elaborada e bastante razoável: privilegiou o conhecimento abrangente do programa e a capacidade analítica do candidato, exigiu bom conhecimento factual e, principalmente, evitou a ocorrência de "produção industrial de respostas prontas" mediante a cobrança de temas não tão "quentes"

Prova de Geografia

Questão 1
A lavoura cafeeira foi o objetivo da ocupação de vastas áreas do território brasileiro. Apresente uma cronologia do movimento de expansão dessa cultura, identificando as regiões incorporadas no processo e caracterizando as relações de produção dominantes nos distintos períodos.
Extensão Máxima: 90 linhas
Valor: 30 pontos

A questão 1 de geografia é um excelente exemplo de como os temas do CACD 2008 são interdisciplinares e também da necessidade de bom conhecimento factual. Ao exigir a apresentação de cronologia, a banca dá indícios muito claros de que o "enrolômetro" estará funcionando durante a correção. Para uma boa resposta, seria preciso ter bom conhecimento e história, obviamente. A questão 1 de geografia tem claramente intersecções com a questão 1 da prova de história, especialmente no que concerne à utilização do trabalho escravo, do trabalho servil de do trabalho "livre". A expansão do café a partir do Vale do Paraíba, no RJ, até São Paulo, assim como a exploração extensiva da terra e a produção voltada para exportação também são fatores relevantes. O mais importante, contudo, é que o candidato tenha escapado da armadilha de elaborar uma resposta histórica, que não tenha privilegiado os conceitos, a linguagem e as análises geográficas do tema.

Questão 2
Muitos economistas reconhecem a Índia e a China como as novas “locomotivas” (como se diz comumente no discurso jornalístico) da economia mundial. Estabeleça as semelhanças e diferenças entre os modelos de desenvolvimento desses países, avaliando as vantagens comparativas e competitivas de cada um deles.
Extensão máxima: 90 linhas
Valor: 30 pontos

Aqui temos mais um exemplo de questão interdisciplinar e, principalmente, de armadilha. Aparentemente, a referência a economistas dá indicação da abordagem esperada, assim como a questão poderia ser tema da prova de política internacional. Não nos enganemos. É evidente que a analise de geografia econômica seria a mais adequada e, para bem fazê-la, é necessário o conhecimento de seus conceitos e de sua linguagem. Além disso, seria muito importante não se concentrar somente nos aspectos econômicos estritos do modelo de desenvolvimento de cada país, mas dar ênfase a questões "tipicamente geográficas", como fontes de energia, transportes, inserção econômica internacional e aspectos geopolíticos.

Questão 3
O sistema de transporte no Brasil é composto pelas redes rodoviárias (1.724.929 km de extensão), ferroviária (30.555 km) e hidroviária (cerca de 28.000 km de vias navegáveis). Discorra sobre as principais dificuldades apresentadas para a gestão desse sistema e suas implicações para o chamado “custo Brasil”.
Extensão máxima:60 linhas
Valor: 20 pontos

A questão 3 é um excelente exemplo da conjugação de conhecimento factual e capacidades crítica e analítica. O tema não é difícil, pelo contrário, é de extrema importância, muito debatido e exaustivamente estudado nos livros didáticos mais básicos. O conhecimento das principais vias de transporte já seria suficiente, já que sessenta linhas não dão espaço o bastante para conjugar análise e grande número de informações. Quanto aos problemas de gestão, acredito que o papel das agências reguladoras (ANTT e ANTAQ); o compartilhamento de responsabilidades entre União e estado; a coexistência de estradas concedidas e entradas sob administração pública; o sucateamento do rede ferroviária; a concentração do escoamento da produção no transporte rodoviário e as dificuldades de licenciamento ambiental para a construção de eclusas em hidrovias, por exemplo, configurariam boa resposta.


Questão 4
Até a década de 90 do século passado, a indústria automobilística paulista respondia por cerca de 75% da produção nacional de veículos. Hoje, essa participação corresponde a, aproximadamente, 45%. Considerando-se que a produção de automóveis de São Paulo é a mais alta de todos os tempos, como se explica essa redução?
Extensão máxima: 60 linhas
Valor: 20 pontos

A questão 4 exigia do candidato bom conhecimento do processo de desconcentração industrial que ocorre desde os anos 90 no setor automobilístico. Atualmente, estados como Rio Grande do Sul, Paraná e Bahia, além de Minas Gerais e Rio de Janeiro(que receberam novas unidades de montadoras), são produtores de automóveis. Alguns aspectos colaterais poderiam ser abordados, como a "guerra fiscal" entre os estados para a instalação de montadoras(Ford saiu do RS para ir para a BA, por exemplo). O bom uso dos conceitos geográficos na análise será fundamental.

Por fim, acredito que as provas foram muito bem elaboradas e e devem selecionar candidatos bem preparados. O nível dos candidatos que chegaram até aqui é alto e a formulação das provas contribuirá para destacar os melhores, tarefa cada vez mais difícil diante do crescente número de candidatos de altíssimo nível de preparação.

Boa sorte a todos e até a semana que vem.